Fomos enxertados… mas peraí, enxerto não leva adubo? E adubo não é feito de estrume?

30 12 2010

Gostaria de compartilhar um detalhe muito especial no texto de Lucas 13. Um detalhe que faz toda a diferença na compreensão deste texto.

“E passou a narrar esta parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha; e indo procurar fruto nela, e não o achou” (Lc 13.6).

Hum? Uma figueira plantada em uma vinha?

Parece-me que este tipo de plantação não é a que naturalmente produz, a não ser que seja-lhe feito um enxerto com estrume (como concorda o versículo 8, leia).

Vamos ver se entendemos o que estava acontecendo: uma árvore que era produtora potencial de figos, foi plantada em uma videira. E era esperado que ela desse uvas, ou mesmo figos, ou alguma outra variação, já que se tratava de um enxerto. Mas ela não deu. E Jesus disse que daria-lhe tempo para que talvez um enxerto resultasse no processo de frutificação. Andei estudando e vi que os enxertos são muito eficazes e muito produtivos, pois gozam da mesma seiva da árvore principal de onde foram plantados. Veja:

“A enxertia é um processo de reprodução de planta eficaz e muito interessante. (…) As células que se reproduzirem a partir do enxerto trarão as características exatas da planta mãe de onde foi retirado o garfo ou a borbulha. Nota-se então que se você quiser reproduzir uma planta de ótima qualidade seja ela frutífera ou florífera, um caminho pode ser a enxertia. Existem plantas que só são reproduzidas por este processo. A experiência mostra que as plantas enxertadas ficam de porte menor, mais atarracadas e produzem frutos melhores e em maior quantidade e o que é melhor, em muito menos tempo”.

(Extraído de http://www.atelierdobonsai.com.br/enxertia.html)

Talvez o Ap. Paulo nem tivesse pensando neste texto de Lc 13 quando escreveu Rm 11.11-24, ou talvez sim, pensou e até o usou como base, uma vez que Lucas era seu discípulo. Paulo se refere a um enxerto (espiritual), para mostrar o processo de como fomos enxertados no propósito salvífico de Deus. Ele usa a figura de uma oliveira para dizer como nós, que éramos oliveiras bravas, fomos enxertados em boa oliveira, nos tornando agora, “participantes da raiz e da seiva da oliveira” (Rm 11.17).

Apesar de não ser um processo natural, esse processo de frutificação, funciona muito bem, mas só funciona quando há uma acção externa. Não funciona sozinho, apenas caindo uma semente na terra. Há de haver muito investimento para que nasçam frutos. Há de haver os enxertos.

Bem, não quero fugir do texto de Lucas 13, nem da verdade principal do texto, que foi a que Jesus tencionou comunicar. O texto ilustra a conversa anterior de Jesus com os judeus sobre a necessidade de arrependimento. O fruto que Jesus esperava encontrar em Israel, depois de três anos de investimento, era o arrependimento. Talvez, eles se fiassem no facto de serem filhos de Abraão, mas Jesus lhes disse que, se eles não se arrependessem, pereceriam da mesma forma que os criminosos. E Jesus usou a figura de uma árvore sem frutos (sem arrependimento) para ilustrar a possibilidade de Israel ser cortada, caso não produzisse o fruto esperado.

Como podemos aplicar este texto e estas verdades à nossa vida?

  1. Todos precisamos nos arrepender, pois não existe hereditariedade no Reino de Deus. Deus só tem filhos; não tem netos! Filho de peixe é peixinho, mas filho de crente não é crentinho. Mesmo quando nascemos na igreja, precisamos confessar a Jesus, com arrependimento, pelos nossos pecados. E não quero aqui falar apenas do arrependimento inicial para a salvação, mas da continuidade do arrependimento na vida diária cristã. Arrependimento é dia a dia! Á medida em que nos relacionamos com Deus por meio de sua Palavra, ela nos expõe, expõe nossas falhas. E Deus espera que esta exposição nos leve ao quebrantamento, ao arrependimento, e assim à mudança de mente, e consequentemente, de atitudes.
  2. Como a natureza que herdamos de Adão não era naturalmente produtiva (era uma oliveira brava), foi necessário um enxerto. Foi Deus quem nos enxertou, como disse Paulo aos Romanos. E isso nos tornou co-participantes da  salvação que foi primariamente, anunciada aos judeus. Fomos enxertados … mas peraí, enxerto não leva adubo? E adubo não é feito de estrume? O enxerto em si não é feito de estrume, mas o estrume é necessário no processo de enxertia; ele é depositado no solo, junto à planta enxertada. Veja o Comentário do nosso irmão Robson Lelles sobre esse assunto: (preciso agradecê-lo, pois ele corrigiu esta frase, com o comentário que posto a seguir, me ajudando muito na apresentação mais coerente deste Post):
    “(…) um enxerto é realizado através da inserção de um ramo de uma planta numa fenda aberta no tronco de outra planta (matriz) até alcançar-lhe os canais lenhosos, por onde flui a seiva. Não se coloca estrume, húmus ou qualquer adubo na enxertia, ou se corre o risco de infectar o enxerto e a própria planta matriz, infeccionando e matando a ambos. A conexão entre o ramo enxertado e o tronco fendido da planta matriz deve estar totalmente limpa (sem estrume, portanto), para que os canais da seiva da planta matriz venham a se unir com os do ramo enxertado, passando a alimentá-lo com a seiva elaborada a partir daquele tronco. Costuma-se inclusive isolar o ponto da enxertia com tiras de tecido fortemente amarrados, para que não ocorra infiltração de agentes contaminadores, de forma a garantir o sucesso daquela união, até que ocorra a cicatrização da fenda e do ramo num único tecido. Só então a amarração é retirada e o enxerto é dado como bem-sucedido. Inclusive, para que alguns enxertos específicos “peguem”, é costume aplicar-se pinceladas de uma calda antibiótica na parte externa da conexão, tamanha é a suscetibilidade daquelas espécies a contaminações. A pureza dessa “conexão” é que garante a pureza da seiva que alimentará o enxerto, assim como a pureza da mensagem (seiva espiritual) que chega até nós, os enxertados, garante a pureza de nossa alimentação espiritual, tornando-nos espiritualmente fortes. Quanto ao ADUBO (estrume, húmus), este continua sendo necessário e deve ser aplicado no entorno da raiz da planta matriz, para que as RAÍZES absorvam os nutrientes, juntamente com a água, sintetizando a SEIVA que circulará entre a planta matriz e o enxerto (…)”.

  3. Interessante, uma vez ouvi um pastor dizer que a raiz da palavra humildade vem de húmus. Húmus é uma palavra de origem latina que quer dizer terra fértil, rica em nutrientes e preparada para receber a semente. Húmus ou humo é a matéria orgânica depositada no solo, resultante da decomposição de animais e plantas mortas, ou de seus subprodutos. O esterco para a frutificação é produzido por aquilo que é excretado do nosso corpo e também pelo material resultante da morte de organismos. O esterco, que tem a ver com a fertilidade da terra, primeiramente tem a ver com a morte de seres. Não há enxerto sem humos, não há vida sem morte e também não há frutificação sem arrependimento. Então, uma pessoa frutífera não é aquela que mais trabalha, mas é aquela que carrega em si, a morte, sendo exactamente este factor, o potencializador de sua vida! (a semente precisa morrer para produzir).
  4. E nesta altura, não dá para tomarmos atalhos! Essa regra vale para todos: líderes e liderados; pais ou filhos. Este é um daqueles valores onde não há como negociar. O homem pode até aceitar substitutos, presentes, e se deixar levar pela manipulação que maqueia a falta de arrependimento. Mas Deus? Não-não! Deus conhece o nosso interior e sabe exactamente “o quê é o quê” e “quem é quem”. Ele pesa todas as motivações; aliás, todas as coisas são nuas e patentes diante Dele. Arrependimento é mudança de mente e de atitudes. E humildade é quando reconhecemos  que precisamos morrer todos os dias, e que precisamos aprender sempre!

    Só damos a evidência de que estamos realmente arrependidos, quando mudamos de facto! E isso implica em voltarmos atrás para consertarmos algumas coisas, em termos coragem para pedir perdão e reconhecermos nossos erros. A nossa frutificação e prosperidade dependem disso. Se isto ainda é difícil, ainda não há húmus suficientes para iniciar o processo! Podemos até trabalhar muito e fazermos muitas coisas ao mesmo tempo, e algumas ou muitas delas, até em Nome de Deus; mas infelizmente, sem produzir o fruto que Jesus espera encontrar: o arrependimento. Nossa dificuldade em nos arrependermos e pedirmos perdão, pode comprometer toda a nossa colheita! Se você está lendo isso e se sentindo confrontado, ainda há uma esperança! O ruim é quando a vaidade toma conta de nós de tal forma, que sempre achamos que a Palavra é para o outro e nunca para nós! Não fique o tempo todo vendo o erro das pessoas e o que elas fizeram ou não, contra você. Enxergue seus próprios erros através dos olhos da humildade e do arrependimento. Esses são os olhos de Jesus (Sl 32.8). Se você quer ser produtivo e agradar o dono da vinha, com lindos e saudáveis frutos, arrependa-se hoje e humildemente decida consertar o que ficou para trás. Mude sua mente, suas atitudes, peça perdão a quem você ofendeu e aos que te ofenderam, como Jesus ensinou em Mt 5.23,24. Comece de novo se for necessário, mas comece certo. Jesus nos ama tanto, que está disposto a investir em nós, o tempo que for necessário, mas algumas atitudes nossas, podem abreviar alguns processos.

Que em 2011, você possa ser uma árvore carregada de muitos frutos, todos agradáveis ao Senhor! E termino com uma frase que meu amigo Arthur me enviou esta semana por e-mail: Não existe glória sem morte, “a glória de Deus se acomoda bem sobre defuntos”. Feliz “2011: o ano da morte do “eu” e do fogo de Deus”. Baruch Hashem! Daniele Marques.

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5 responses

3 01 2011
Marcos Pinheirro

A Paz de Cristo irmã Daniele
MUITO BOM ARTIGO. PARABÉNA PELO BLOG

7 01 2011
Marcelo

Graça e paz
bom dia
Muito boa colocação do versículo. Eu estudei-o neste último semestre no seminário, mas o vi de outra forma agora.
Deus abençoe grandemente

Gostei do que li, estou te acompanhando ok?
Marcelo

7 01 2011
Blog da Danny

Obrigada Marcelo, pelo seu comentário!
É maravilhoso como a Palavra de Deus é Viva e aprendemos com ela, dia-após-dia!
Por mais que a estudemos, Deus sempre terá coisas novas para nos revelar. E isso é fascinante, não é?
Que Deus abençoe sua vida grandemente!
Um grande abraço.
Daniele Marques.

7 01 2011
Robson Lelles

Somos aço afiando aço: aprendemos uns com os outros.
Que DEUS os abençoe!

8 01 2011
Marcelo

Muito bom post! Que Deus seja louvado em sua vida, irmã Daniele. Fique com Papai do Céu!

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